Uma expedição científica realizada no remoto planalto de Lisima, no leste de Angola, resultou na descoberta de dezenas de espécies potencialmente desconhecidas pela ciência, reforçando a importância da região como um dos mais relevantes refúgios de biodiversidade em África.
Os resultados foram anunciados esta quarta-feira pelo The Wilderness Project, organização fundada pelo explorador sul-africano Steve Boyes, e representam mais um passo significativo no conhecimento científico de uma área considerada durante décadas um dos maiores “pontos cegos” da biodiversidade africana.
Situado nas terras altas de Angola, o planalto de Lisima desempenha um papel fundamental na alimentação das nascentes dos sistemas fluviais do Congo, Okavango, Zambeze e Cuanza. Apesar da sua relevância ecológica, a região permaneceu largamente inexplorada devido à sua geografia de difícil acesso e aos impactos da guerra civil angolana, que se prolongou durante 27 anos e terminou apenas em 2002.

O levantamento, denominado “Atlas da Vida em Cassai”, foi realizado em Fevereiro deste ano e envolveu uma equipa composta por 16 especialistas africanos e internacionais. A iniciativa complementa estudos anteriores conduzidos pelo National Geographic Okavango Wilderness Project e permitiu obter aquela que é considerada a documentação mais detalhada alguma vez realizada sobre o planalto.
Aranhas, libélulas e insectos inéditos surpreendem cientistas

Entre as descobertas mais impressionantes encontra-se uma espécie potencialmente nova de aranha-caranguejo-coroada que apresenta uma característica rara: brilha em azul quando exposta à luz ultravioleta. Os cientistas ainda procuram compreender a razão deste fenómeno.
Outra descoberta relevante foi a de uma aranha-tecedeira-de-joaninha, que desenvolveu um mecanismo de defesa baseado na imitação da aparência de joaninhas tóxicas, reduzindo assim o risco de ser atacada por predadores.
A expedição registou ainda 103 espécies de libélulas e libelinhas, das quais oito poderão ser novas para a ciência. Foram igualmente identificadas oito novas espécies de traças e três espécies inéditas de gafanhotos, esperanças e grilos. Os investigadores acreditam que o número de novas espécies poderá aumentar à medida que os especialistas concluam a análise dos exemplares recolhidos.
Espécies raras reforçam valor ecológico da região

Além das potenciais novidades científicas, a equipa encontrou espécies já conhecidas, mas consideradas extraordinárias pela sua raridade e adaptação ao ambiente.
Entre elas destaca-se a víbora-gabão, uma das serpentes venenosas mais impressionantes do continente africano, conhecida pelas suas presas que podem atingir até cinco centímetros de comprimento. Foram igualmente observadas moscas-morcego, parasitas especializados que vivem entre a pelagem dos morcegos e se alimentam do seu sangue, bem como a peculiar traça-de-muitas-plumas, cujas asas apresentam estruturas semelhantes a penas.
Desafios da expedição incluíram lama, avarias e casos de malária

Segundo Rob Taylor, líder da expedição, a missão decorreu durante o auge da estação chuvosa, tornando o trabalho de campo particularmente exigente.
Em declarações divulgadas pela organização, Taylor revelou que os veículos ficaram atolados na lama em diversas ocasiões, obrigando a equipa a interromper temporariamente as deslocações. Foram ainda registadas avarias mecânicas, problemas nos sistemas eléctricos dos veículos e vários casos de malária entre os membros da expedição.
Apesar dos desafios, os cientistas aproveitaram cada paragem forçada para continuar a investigação em zonas húmidas, florestas pantanosas e dambos, áreas sazonalmente inundadas que desempenham um papel fundamental na manutenção dos ecossistemas locais.
Conservação é prioridade para proteger novas espécies

Com a revelação destas descobertas, a principal preocupação passa agora pela protecção dos habitats que sustentam esta biodiversidade única.
Os especialistas alertam que espécies com distribuição geográfica limitada ou dependentes de habitats muito específicos poderão ser particularmente vulneráveis às actividades humanas, incluindo mineração, desflorestação, queimadas e alterações na qualidade da água.
Nos últimos anos, o relativo isolamento da região contribuiu para a preservação dos seus recursos naturais. Em 2025, cerca de 5,4 milhões de hectares do planalto receberam reconhecimento oficial graças aos esforços de organizações de conservação.
Em Outubro do ano passado, a Convenção Ramsar classificou a área conhecida como Lisima Lya Mwono, expressão que significa “Fonte da Vida”, como zona húmida de importância internacional. A designação reconhece o papel essencial das águas subterrâneas da região na manutenção de aproximadamente 110 mil quilómetros quadrados de ecossistemas circundantes.
Para Rob Taylor, o objectivo final vai além da descoberta de novas espécies.

“O propósito não é apenas documentar novas formas de vida, mas garantir que os habitats dos quais dependem permaneçam intactos para as gerações futuras”, afirmou.
As descobertas reforçam a importância das terras altas de Angola como um dos mais valiosos patrimónios naturais do continente africano e demonstram que, mesmo numa era de crescente perda de biodiversidade global, ainda existem regiões capazes de revelar espécies até agora desconhecidas pela ciência.

