InícioLocais históricosPórtico dos Escravos em Inhambane vira ruína aos olhos do Governo

Pórtico dos Escravos em Inhambane vira ruína aos olhos do Governo

Entre 1910 e 1922, Inhambane viveu um dos períodos mais tensos sob o jugo colonial português. Trata-se de uma fase sombria da história de Moçambique, marcada pela deportação de milhares de cidadãos, submetidos a trabalhos forçados impostos pela administração colonial. 

Uma visita ao local permitiu constatar sinais evidentes de abandono do chamado Pórtico dos Escravos, na conhecida “terra de boa gente”. A estrutura apresenta degradação visível, ausência de manutenção e nenhuma sinalização adequada que contextualize o seu valor histórico. 

A Moz Turismo procurou ainda aferir o nível de conhecimento da população sobre o monumento. No entanto, as fontes contactadas, sobretudo jovens, revelaram desconhecimento e curiosidade sobre o que realmente ocorreu naquele espaço.

“Sempre vi esse edifício, mas não sei o que é. Pensei que fosse um armazém antigo, já que tem tubos de água por detrás”, afirmou um jovem de 26 anos que preferiu não se identificar. 

“Nunca ninguém nos explicou o que aconteceu ali”, acrescentou uma estudante do segundo ano de Português na faculdade. Com uma placa pequena e fraca visibilidade no período noturno, o monumento passa despercebido para muitos, reduzido a uma construção antiga, aparentemente sem significado. 

Para os cidadãos que conhecem a história do pórtico, o sentimento é de revolta e preocupação diante do estado atual do espaço. “Ali é um lugar de memória. Pessoas foram levadas dali contra a sua vontade. Hoje vemos pessoas a passar por ali como se nada tivesse acontecido. Houve uma altura em que alguns faziam necessidades menores de dia e maiores de noite, porque o local estava tomado pelo capim”, lamentou um residente.

“O mais triste é ver jovens que não sabem o que aquilo representa. As escolas pouco ensinam sobre a história e cultura do nosso país, e isso contribui para a falta de respeito”, reforçou outro munícipe. 

Segundo informações apuradas pela Moz Turismo, o Pórtico dos Escravos representa um capítulo doloroso da história moçambicana, associado ao tráfico humano e aos trabalhos forçados durante o período colonial. 

Contudo, a ausência de conservação, valorização e educação patrimonial levanta sérias questões sobre o compromisso com a preservação da memória histórica na cidade. Actualmente, por detrás do edifício funciona o estaleiro de materiais de uma das principais empresas de abastecimento de água da cidade.

Enquanto permanece fechado, cercado por lixo e sinais de degradação, o monumento parece simbolizar não apenas um passado de sofrimento, mas também um presente marcado pelo esquecimento. A pergunta que se impõe é clara: quem será responsável por devolver dignidade a um dos espaços mais sensíveis da história de Inhambane?

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